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O Futuro das Universidades:  implosão ou transformação? Parte II- A pesquisa e a Inovação na Universidade

Paulo Alcantara Gomes *

 

Se a universidade convencional enfrenta os desafios trazidos pela educação a distância, pela interdisciplinaridade e pela inteligência artificial, existe uma segunda camada dessa crise ainda mais profunda: a fragilidade crescente da pesquisa acadêmica e sua desconexão com a transformação produtiva do mundo contemporâneo.
A crise universitária não é apenas pedagógica. É também científica, econômica e estratégica. A questão central tornou-se inevitável: como sobreviver em um mundo onde inovação ocorre mais rapidamente nas empresas do que nos  campi universitários.
Durante boa parte do século XX, as universidades foram o principal motor da produção científica mundial. Grandes descobertas surgiram de laboratórios acadêmicos,  como avanços em física, medicina, engenharia, química, computação e telecomunicações. A pesquisa universitária era vista como investimento civilizatório.
Mas esse modelo começou a mostrar sinais de esgotamento. Em muitos países, especialmente nas economias emergentes, a pesquisa acadêmica enfrenta problemas estruturais persistentes: financiamento abaixo da crítica,  burocracia excessiva; regulamentação; lentidão administrativa; descontinuidade de políticas públicas; precarização da carreira científica; fuga de talentos.
Ao mesmo tempo, o sistema de avaliação acadêmica tornou-se absurdamente quantitativo. Publicar passou, muitas vezes, a ser mais importante do que resolver problemas reais. A lógica do publish or perish — publicar ou perecer — gerou distorções profundas. Pesquisadores frequentemente são pressionados a produzir artigos em volume, ainda que de impacto limitado, para atender métricas institucionais e exigências burocráticas.
O resultado é paradoxal, pois há uma produção de ciência formal, mas nem sempre inovação efetiva. Em muitos casos, a universidade gera conhecimento que circula apenas entre pares acadêmicos, distante das demandas concretas da sociedade e da economia.
O Brasil é um exemplo disso, pois somos o 14° em número de publicações em revistas e periódicos, e andamos lá pelo 60° lugar em competitividade, fundamental para que sejamos protagonistas no cenário global. 
Uma das maiores fragilidades do modelo universitário tradicional é sua relação historicamente limitada com o setor produtivo. Em várias regiões do mundo, especialmente na América Latina, universidades e empresas frequentemente operam como universos paralelos.
De um lado, as empresas reclamam da baixa aderência dos currículos às necessidades reais do mercado, e da dificuldade em transformar pesquisa em inovação aplicável. Do outro, universidades acusam o setor produtivo de pouca disposição para investir em ciência, tecnologia e desenvolvimento de longo prazo. Essa desconexão produz desperdício de potencial, os laboratórios permanecem subutilizados, as teses tornam-se documentos esquecidos em bibliotecas digitais e as pesquisas  promissoras não alcançam escalabilidade industrial. 
No entanto, os países que mais avançaram tecnologicamente fizeram exatamente o oposto. Criaram ecossistemas integrados de inovação. Nesses sistemas, universidades, empresas, governos e centros de pesquisa trabalham conjuntamente em desafios estratégicos: energia, defesa, biotecnologia, inteligência artificial, manufatura avançada, mobilidade e sustentabilidade, por exemplo. O conhecimento deixa de ser apenas produção intelectual e transforma-se em riqueza, produtividade e soberania tecnológica. A sobrevivência da universidade contemporânea dependerá de sua capacidade de abandonar o isolamento institucional, pois não basta ensinar. Será necessário criar novas soluções.
O modelo universitário atual, herdado do século XIX, e conhecido como modelo de Humboldt, ainda é fortemente inspirado na chamada “torre de marfim”: um espaço relativamente isolado, dedicado à reflexão e à produção do conhecimento.Esse modelo, é claro, teve enorme valor histórico, mas o século XXI exige algo diferente. A universidade do futuro tenderá a assumir características mais próximas de um ecossistema de inovação do que de uma instituição tradicional de ensino.
Isso significa á imperioso construir e redefinir laboratórios compartilhados com empresas, programas de pesquisa orientados por desafios reais, incubadoras e spin-offs universitárias, empreendedorismo, propriedade intelectual mais dinâmica, redes internacionais de cooperação e formação baseada em projetos e problemas.
É claro que o país também precisa apoiar as pesquisas em áreas de ciências humanas e sociais, e em artes e cultura, para que se mantenha a identidade do povo brasileiro.Esse é um dos maiores dilemas da universidade, o de equilibrar a pesquisa aplicada e a pesquisa básica (no conceito da National Science Foundation- NSF). Entretanto, deve ser reconhecido que há muitas contribuições excelentes nessas áreas, e que não chegam ao conhecimento da sociedade, por falta de divulgação.
A distinção rígida entre “ensino”, “pesquisa” e “extensão” tende a desaparecer. Tudo se integrará em torno da resolução de problemas complexos. Nesse cenário, a engenharia talvez seja uma das áreas mais afetadas — e também uma das mais estratégicas. O engenheiro do futuro precisará combinar sólida base científica, visão sistêmica, competências digitais, criatividade e capacidade de articulação interdisciplinar. Nao  bastará dominar cálculo de estruturas, por exemplo. Será preciso compreender dados, sustentabilidade, automação, economia, comportamento humano e inteligência artificial.
Outro elemento central dessa transformação é o ritmo avassalador da inovação industrial. Historicamente, universidades lideravam o avanço científico, e a indústria transformava esse conhecimento em produtos. Hoje, em muitos setores, a indústria lidera os avanços. .
Grandes empresas de tecnologia passaram a investir volumes gigantescos em pesquisa e desenvolvimento. Em alguns setores, empresas privadas possuem mais infraestrutura computacional, mais dados e mais capacidade experimental do que universidades inteiras. Gigantes industriais lideram pesquisas em: inteligência artificial; semicondutores; computação quântica; robótica; biotecnologia; energia limpa; materiais avançados.
O risco para as universidades é evidente, pois elas podem se tornar fornecedoras secundárias de mão de obra, enquanto a fronteira do conhecimento migra para centros do setor produtivo.
Para sobreviver, será necessário redefinir sua missão. A universidade não poderá competir apenas por mais verbas. Seu diferencial deverá ser criatividade científica, pensamento crítico, independência intelectual e capacidade de formação humana profunda.
Talvez nenhum exemplo seja mais emblemático da transformação educacional e industrial do que a China. Há poucas décadas, o país era associado à produção de bens de baixo custo e à reprodução tecnológica. Hoje, tornou-se uma potência científica, industrial e tecnológica. Essa transformação não ocorreu por acaso.
A China entendeu que universidade, a pesquisa e a indústria precisam operar de forma integrada. O país investiu maciçamente em expansão universitária; internacionalização da ciência; formação intensiva em engenharia e tecnologia; pesquisa aplicada; inteligência artificial; manufatura avançada; inovação industrial.
Ao contrário de modelos excessivamente fragmentados, as universidades chinesas frequentemente mantêm relações estreitas com empresas e políticas nacionais de desenvolvimento. A estratégia das universidades é fazer a ciência contribuir efetivamente para o incremento da competitividade nacional.
Em poucas décadas, a China passou de imitadora tecnológica a protagonista em áreas como veículos elétricos, telecomunicações, energia solar, baterias, inteligência artificial e infraestrutura digital.
Esse movimento revela que o futuro das universidades dependerá menos de tradição e mais de capacidade de adaptação. Dessa forma, o prestígio histórico não garantirá a sobrevivência. A universidade que quiser permanecer relevante nas próximas décadas precisará mudar profundamente. Alguns caminhos me  parecem inevitáveis. Cito os seguintes
1. Aproximação radical com o setor produtivo – O que não significa submissão mercadológica, e deve ser entendida como cooperação inteligente. As Universidades precisarão participar da geração de riqueza e inovação.
2. Pesquisa orientada por impacto – que  não abandone de forma alguma a ciência básica, mas equilibre investigação fundamental e desafios concretos da sociedade.
3. Formação interdisciplinar e uso intensivo do modelo STEAM – A integração entre ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática será cada vez mais decisiva na educação.
4. Internacionalização – A ciência tornou-se global e, dessa forma, universidades isoladas tendem a se tornar irrelevantes
5. Inteligência artificial integrada- A IA não deve ser tratada como ameaça, mas como ferramenta de ampliação das capacidades humanas.
6. Formação ao longo da vida- O diploma de quatro ou cinco anos já não é mais suficiente. A universidade precisará acompanhar o profissional continuamente. Entendo que os mestrados e doutorados serão fortemente influenciados  e sofrerão grandes modificações.
A crise universitária não é um acidente histórico. Ela representa a transição entre dois modelos de civilização. O primeiro, o modelo industrial, baseado em estabilidade, especialização e conhecimento escasso. O segundo, digital, baseado em velocidade, integração, inovação e aprendizado contínuo.
Nesse novo mundo, a pesquisa sem aplicação tenderá cada vez mais à irrelevância e o ensino sem interdisciplinaridade tenderá à obsolescência. Se as universidades se isolarem do setor produtivo tenderão ao enfraquecimento.
Mas isso não significa o fim inevitável da universidade, mas apenas sua reinvenção. A instituição que sobreviver será menos burocrática, mais conectada, mais interdisciplinar, mais internacional e profundamente integrada aos desafios econômicos, tecnológicos e humanos do século XXI.
A pergunta que devemos fazer não é se a universidade mudará, mas se conseguirá  mudar antes que o mundo mude sem ela.
Proximamente, vou falar sobre a formação de engenheiros e técnicos e, num quarto artigo, sobre a importância da pesquisa básica. 

* Professor Emérito e ex-Reitor da Universidade Federal, do Rio de Janeiro, Diretor Acadêmico da Faculdade Cesgranrio e Presidente da Associação Brasileira de Educação – ABE

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